Terreiros organizam o cuidado com as folhas como prática ritual, relação com o território e diálogo possível com a ciência.
Na Umbanda, as ervas não aparecem apenas como recurso para banho ou defumação. As fontes mostram uma cadeia de saberes que envolve cultivo, coleta, preparo, uso ritual e transmissão entre gerações, com diferenças entre casas e regiões. Em alguns casos, esse conhecimento também dialoga com pesquisas acadêmicas e políticas de preservação cultural.
Ervas como relação, não só como insumo
Uma etnografia de um terreiro paulista descreve que as plantas são tratadas como sujeitos de relação, e não apenas como matéria-prima. Nesse contexto, os adeptos coletam, rezam e preparam as plantas, enquanto o texto registra a ideia de que as próprias plantas também se desenvolvem por meio do contato humano. Isso ajuda a entender que o cuidado com ervas, em muitos terreiros, envolve reciprocidade, escuta e circulação de saber.
Essa abordagem não deve ser generalizada para toda a Umbanda, porque não existe uma doutrina única que defina todos os terreiros. Ainda assim, o estudo mostra um ponto importante: o uso das folhas costuma fazer parte de uma lógica de pertencimento ao território, à memória do terreiro e à forma como a casa organiza seus fundamentos.
Defumação e banho de ervas dentro da cadeia ritual
No terreiro pesquisado em São Paulo, a defumação aparece como primeiro ato ritual de abertura. O preparo combina plantas aromáticas e desidratadas sobre carvão em brasa, sob condução de mãe ou pai de santo. O foco, portanto, não está só no aroma ou na limpeza física do ambiente, mas na organização ritual da casa e na passagem entre um estado e outro da gira.
O banho de ervas também é descrito de maneira mais complexa do que um simples contato com a água. A etnografia registra que evitar tocar as mãos no banho pode ser entendido como uma forma menos intensa de interação com os vegetais, reconhecendo certa autonomia das plantas. Em vez de prescrever modos de uso, a matéria precisa destacar que cada terreiro pode orientar o preparo e a aplicação conforme sua linhagem, seus fundamentos e seu modo próprio de cuidar.
Quando o saber do terreiro encontra a pesquisa acadêmica
Uma pesquisa do IFAL, em Penedo e Neópolis, estudou seis ervas a partir de entrevistas em dois terreiros e de análises laboratoriais com FTIR e PCA para identificar fitoquímicos. O material associa essas ervas a rituais de purificação, defumação e cura, e menciona que os umbandistas relacionam as plantas às energias dos orixás. Nesse recorte, Ossain é lembrado como a divindade ligada ao uso correto e respeitoso das folhas.
Já um estudo da UERGS, em São Borja, encontrou que 63,6% das plantas citadas pelos entrevistados tinham alguma indicação terapêutica também reconhecida na literatura. Isso não comprova consenso religioso nem substitui a experiência do terreiro, mas mostra uma convergência parcial entre conhecimento popular e bibliografia. O ponto jornalístico relevante é justamente esse: há diálogo possível entre tradição religiosa, observação acadêmica e pesquisa em saúde, sem reduzir a dimensão espiritual das ervas a um catálogo medicinal.
Território, patrimônio e políticas públicas
O IPHAN registra terreiros que plantam ervas sagradas e mantêm ações sociais e celebrações, o que ajuda a enquadrar essas plantas como parte da infraestrutura material e simbólica do terreiro. Nesse sentido, o cuidado com as ervas se liga ao território, à memória e à salvaguarda de práticas culturais.
A pesquisa da Unilab em Fortaleza reforça essa dimensão pública ao tratar terreiros como patrimônio e ao sugerir uso dos dados para políticas municipais voltadas a povos e comunidades tradicionais de terreiro. Para o leitor, isso mostra que falar de ervas na Umbanda também é falar de reconhecimento institucional, proteção cultural e condições concretas para manter viveiros, quintais e saberes vivos dentro das casas.
Fontes consultadas
- Brazil – Jeitos, sujeitos e afetos: participação das plantas na composição de médiuns umbandistas Jeitos, sujeitos e afetos: participação das plantas na composição de médiuns umbandistas
- Pesquisadoras do Ifal Penedo fazem estudo sobre ervas utilizadas em práticas umbandistas — Instituto Federal de Alagoas
- Potencial de uso medicinal e místico de plantas utilizadas em rituais de umbanda | Revista Eletrônica Científica da UERGS
- EDUCAÇÃO PATRIMONIAL,
- Grupo Diálogos da Unilab participa da pesquisa inédita “Mapeamento Participativo de Terreiros da Regional V”, em Fortaleza/CE – Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira

