Pesquisas e políticas públicas reconhecem o terreiro como rede popular de apoio, sem substituir o atendimento em saúde.

Em diferentes estudos, o terreiro de Umbanda aparece como espaço de acolhimento, escuta e apoio em momentos de sofrimento, inclusive quando as queixas envolvem saúde mental. Ao mesmo tempo, políticas públicas no SUS reconhecem que racismo e exclusão social afetam a saúde da população negra e citam a importância de fortalecer o acesso de comunidades tradicionais, como os terreiros, aos serviços de saúde.

O terreiro como lugar de acolhimento

Em pesquisa com dirigentes de Umbanda, os autores observam que o “zelar” não aparece separado do “cuidar”. Na prática, isso se expressa em ações de escuta, acolhimento e proximidade física em momentos de urgência, mostrando que a condução da casa religiosa pode incluir atenção concreta ao sofrimento de quem procura ajuda.

Esse estudo também descreve o terreiro como um locus de acolhimento, isto é, um espaço que pode oferecer apoio social e afetivo para além da dimensão estritamente religiosa. Para o leitor iniciante, isso ajuda a entender por que muitas pessoas procuram o terreiro quando enfrentam dores emocionais, conflitos familiares ou insegurança diante de adoecimento.

Entre explicações espirituais e biomédicas

A pesquisa “Na sala de espera do terreiro” mostra que as pessoas chegam à Umbanda com narrativas de adoecimento que misturam explicações biomédicas e espirituais, inclusive quando falam de saúde mental. Isso não significa substituição automática de um campo pelo outro; indica que, na experiência vivida, muitas pessoas articulam diferentes formas de compreender o sofrimento.

Outro estudo, da Revista de Saúde Pública, afirma que o terreiro é um espaço marcado por acolhimento, aconselhamento e tratamento, integrando dimensões física, psíquica e espiritual. Em termos jornalísticos e de saúde coletiva, a principal informação é que a procura pelo terreiro costuma fazer parte de trajetórias mais amplas de cuidado, não de uma escolha única e isolada.

Relação com a rede formal de saúde

Os trabalhos reunidos na pauta indicam que buscar apoio no terreiro não exclui o uso de serviços de saúde formais. Ao contrário, os itinerários de cuidado tendem a ser combinados, com circulação entre religião, família, comunidade e atendimento profissional quando necessário.

Essa convivência aparece também nas políticas públicas. A Política Nacional de Saúde Integral da População Negra reconhece o racismo como determinante social da saúde e, em documentos do SUS, há diretriz para fortalecer o acesso de comunidades tradicionais, incluindo terreiros, aos serviços de saúde. O Ministério da Saúde também vincula essa política à atenção à saúde mental e ao enfrentamento dos agravos decorrentes da discriminação racial e da exclusão social.

O que essa leitura muda na compreensão da Umbanda

Para leitores iniciantes, a principal distinção é esta: o terreiro não deve ser reduzido a um lugar de ritual, nem romantizado como solução única para sofrimento psíquico. As fontes mostram algo mais específico e mais útil para o debate público: o terreiro pode funcionar como rede popular de cuidado, oferecendo escuta, orientação e amparo simbólico e social para pessoas que chegam em situação de vulnerabilidade.

Essa leitura também ajuda a combater estigmas. Em vez de tratar as religiões de matriz africana como algo marginal ou folclórico, as pesquisas destacam sua presença concreta na vida das pessoas e sua relação com trajetórias reais de cuidado. O reconhecimento institucional dessa dimensão, por sua vez, reforça a importância de políticas de saúde sensíveis à diversidade religiosa e ao impacto do racismo na saúde mental.

Fontes consultadas