Somos todos terráqueos. Por que tanto preconceito?

Foge um pouco do tema Umbandista, mas é um texto para refletir sobre atitudes.

Será que é tão difícil perceber que a maioria das pessoas é extremamente preconceituosa e pratica isso diariamente? Não tô falando de brancos acima de negros, homens melhores que mulheres, nem de heterossexuais mais normais que homossexuais, mas do preconceito que começa na cozinha, domina a cabeça e se espalha por todas as áreas da vida.

Por que os pratos estão cheios de porcos, copos cheios de vacas e corações vazios de compaixão? Por que os cabides penduram raposas, ovelhas e até coelhos, mas nenhum uniforme do super herói que sonhávamos que salvaria o mundo e protegeria os fracos? Por que os gatos e cachorros são tão amados enquanto o corpo do frango gira na padaria, fazendo todos salivarem? Por que o periquito que canta na gaiola do porteiro é lindo, mas o pombo na rua tem que morrer? Por que tanto cuidado em alimentar e manter vivo o peixinho dourado enquanto o jantar é peixinho grelhado?

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São muitas perguntas e apenas uma resposta: especismo, o preconceito de espécie. Esse termo existe e é usado, mas pouco conhecido. É nessa hora que os caga regras se pronunciam em defesa do que sempre fizeram por comodidade: “Nós somos carnívoros. Temos que matar pra nos alimentar. É assim que acontece na natureza”. Adoraria ver como os “carnívoros” que falam isso se sairiam na natureza, caçando com uma velocidade incrível, matando com suas garras afiadas, rasgando a pele da presa e comendo com seus dentes pontudos. “Mas nós somos inteligentes e usamos isso pra sobreviver. Inteligentes comem burros”. Não me parece muito inteligente esgotar o mundo em que vivemos até não termos mais onde viver, apesar de saber as consequências das nossas atitudes. Não me parece muito inteligente querer manter determinados comportamentos por comodidade, e evitar saber a fundo os nossos problemas porque são difíceis demais de resolver. Se inteligentes devem comer mesmo os burros, tem muita gente que deveria estar no cardápio.

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Seria ótimo se o especismo fosse o único preconceito escondido no dia a dia. Já vi pessoas que lutam e gritam alto pelos direitos humanos sendo racistas descarados. Só na cidade do Rio de Janeiro, são entre 200 e 400 animais abandonados por dia, e mesmo sabendo que podemos adotar e mudar a vida de um deles, muitas pessoas ainda preferem comprar um filhote de Golden, Bulldog francês ou qualquer outra raça porque são “mais bonitos”. Quando seus cachorros atingem a maturidade sexual, saem logo a procura de um parceiro pra eles, gerando uma grande oferta de filhotes de raça, enquanto uma nova leva de animais abandonados sofre nas ruas, e tudo isso poderia ser evitado com a castração. A prefeitura até oferece esse serviço de graça (e funciona).

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O ser humano, com toda sua inteligência e superioridade, objetificou os animais e os transformou em produtos. Vacas viraram vacas leiteiras, galinhas viraram galinhas poedeiras e cavalos viraram garanhões. Será que todos pensam que os animais têm patas pra andar, asas pra voar, nadadeiras pra nadar, focinhos pra farejar, bocas pra comer, mas seus cérebros não funcionam pra pensar, sentir dor e emoção? Será que ninguém pensa como é bizarro sermos a única espécie que bebe leite depois da fase de amamentação? E pra piorar é leite de outra espécie. A foca que cruzou com o pinguim chamou atenção de muita gente, mas os humanos que mamam nas vacas são normais. Quando ajudo a expor o terror que é a caça de baleias e golfinhos pra manutenção de uma tradição arcaica, cruel e sem sentido no Japão, nas Ilhas Faroé e em outros lugares do mundo, muitas pessoas se posicionam em defesa dos animais, mas se esquecem de tudo quando comem um churrasco ou uma feijoada, defendendo que é parte da nossa cultura, e por isso deve ser mantida. Nesse momento, percebo que o preconceito talvez não seja o maior dos problemas, mas, sim, a memória curta. Vale lembrar que a escravidão fez parte da nossa cultura, assim como os combates de gladiadores na Roma Antiga, e ambos foram legalmente extintos e habitam a história, agora.

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Conheço muitos veganos que atacam outras pessoas por não seguirem o mesmo estilo de vida que compartilhamos, mas não acho que essa é a forma certa de mudar o mundo. A mudança vem com informação e reflexão, não com briga. No meu caso, bastou entender que não precisamos fazer ninguém sofrer pra que nós pudéssemos viver. Não importa se me provarem que humanos são 100% carnívoros, onívoros e que a natureza espera que comemos bichos, pois já foi provado que podemos viver muito bem (ou melhor) sendo 100% herbívoros ou veganos. Por que eu escolheria fazer alguém sofrer se não preciso? Quando nossas atitudes envolvem mais alguém, nunca é uma simples escolha pessoal.

São mesmo muitas perguntas e muita reflexão a ser feita sobre as nossas atitudes. Um exercício muito bom é se colocar no lugar dos animais em todas essas situações, e nos questionar se faríamos o mesmo com seres humanos. Comecei a escrever com uma pergunta: “Será que é tão difícil perceber que a maioria das pessoas é extremamente preconceituosa e pratica isso diariamente?”, e percebo, agora, que na verdade, não. Não é difícil perceber que a maioria é preconceituosa. O difícil mesmo é perceber quando nós somos os preconceituosos.

 

Fonte: No Divã


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