Os primeiros anos da Umbanda e sua expansão

A Umbanda se desenvolveu durante um processo de transformação na história brasileira. As fábricas desafiaram a predominância da agricultura na economia brasileira. Estas fábricas causaram a expansão da classe trabalhadora; e o Brasil começou a dar os primeiros passos para um mundo moderno e industrial.

A Umbanda também mudou. Nos anos 50 e 60 os aderentes do espiritismo Kardecista, buscando uma nova experiência religiosa, se tornaram seguidores da Umbanda. Outros foram participar dos serviços nos centros de Macumba nas favelas do Rio de Janeiro e São Paulo. Inicialmente estes seguidores da Umbanda preferiram os espíritos e deuses africanos e indígenas cultuados na Macumba – uma rejeição dos métodos racionais dos praticantes mais evoluídos do espiritismo. Este método mais popular permitiu um espectro mais amplo para a cura de doenças e dos problemas da vida.

A atração da Macumba aos seguidores da Umbanda foram suas cerimônias mais estimulantes e dramáticas, muito mais dramáticas do que as sessões de espiritismo. Mas alguns que saíram do Kardecismo ficaram revoltados com os sacrifícios de animais praticados na Macumba e a solicitação de espíritos do mal: os Kiumbas ou Espíritos Obcecados.

Para os ofendidos pela Macumba, a Umbanda proporcionou uma cerimônia dramática sem as práticas das religiões afro-brasileiras primitivas que incorporavam magia negra. A maior atração da Umbanda foi a inclusão dos espíritos de indígenas, escravos negros e multi-raciais.

Novas facções emergeram para “purificar” a nova religião por retirarem algumas das influências africanas da Umbanda. Esta forma alterada do espiritismo Kardecista e da Umbanda é chamada Umbanda Branca. O nome se refere à magia branca, não à pessoas brancas; e é uma oposição direta do culto da Umbanda à Quimbanda (magia negra) e aos rituais africanos tradicionais da Macumba.

De acordo com a antropologista Diana Brown, um esforço coletivo foi tomado por Zélio de Moraes e seu grupo para promover a Umbanda Branca, modernizando as crenças afro-brasileiras e desenvolvendo práticas mais aceitáveis à classe média branca. Os esforços de Zélio, por oferecer uma mistura mais eclética e completa, sinalaram o fim do espiritismo Kardecista

A Umbanda tentou adotar as influências africanas, mas deixando de fora os sacrifícios de animais que repudiaram tantas pessoas. O Centro Espírita Nossa Senhora da Piedade, o primeiro terreiro de Umbanda, honra o espiritismo Kardecista por usar o termo Centro Espírita e também por usar o termo Nossa Senhora da Piedade que é uma referência ao catolicismo.

Apesar da promessa de liberdade religiosa assegurada pela primeira Constituição Republicana Brasileira em 1891, a Lei Criminal de 1890 proíbia a prática do espiritismo, bruxaria e seus sacrilégios. A Lei Criminal de 1942 condenava os “bruxos” e o uso de atos religiosos para praticarem o mal. A antropologista Yvonne Maggie revela que por reprimir a bruxaria, a classe governante do Brasil acreditava que estava protegendo a saúde espiritual da nação.

Na segunda metade do século vinte, os primeiros seguidores da Umbanda estavam ansiosos para se distinguirem das religiões afro-brasileiras como a Macumba e o Candomblé, os quais eram frequentemente reprimidos pelo governo brasileiro.

 

Expansão durante a Ditadura de Vargas

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A simplicidade de Getúlio Vargas

O primeiro estágio da expansão da Umbanda coincidiu com distúrbios sociais e políticos.  A ditadura nacionalista de Getúlio Vargas (1930-1945) empregou a Umbanda para popularizar e consolidar seu poder. Os espíritos da Umbanda: os Caboclos e os Preto Velhos se integraram perfeitamente ao nacionalismo brasileiro do regime de Vargas. Tais símbolos da Umbanda ajudaram seus esforços para criar uma cultura nacional que tocou a população muiti-étnica brasileira.

Os indígenas brasileiros e os descendentes de escravos receberam a Umbanda como sua própria religião, pois a viam como uma religião genuinamente brasileira, o que facilitou a expansão da Umbanda nos anos 30.

A emergente classe trabalhadora urbana definiu Getúlio Vargas como “o pai dos pobres” e como “o pai da Umbanda”. Até os anos 60 muitos terreiros de Umbanda mostravam a foto de Getúlio Vargas como um tipo de santo padroeiro.

Apesar da identificação com a Ditadura de Getúlio Vargas, elementos da classe prominente perseguiam a Umbanda e seus seguidores. A polícia interrompia os encontros religiosos. Líderes espirituais, médiuns e membros da igreja eram perseguidos e os ícones da Umbanda eram confiscados.

Vestimentas, amuletos sagrados, instrumentos e outros objetos das religiões afro-brasileiras confiscadados pela polícia podem ainda ser encontrados no Museu da Polícia no Rio de Janeiro. Até recentemente, esta coleção era ridicularizada como uma Coleção de Bruxaria Negra.

Euclydes Barbosa (1909-88), um jogador de futebol renomado chamado Jaú, foi um mártir da perseguição religiosa. Ele jogou em 1938 com o Time Nacional Brasileiro na Copa do Mundo na França. Jaú foi também um pai-de-santo, o precursor da religião de Umbanda em São Paulo. Nos anos 50, Jaú foi um dos primeiros organizadores da Festa de Iemanjá nas praias de São Paulo. Por causa das suas atividades religiosas, Jaú foi perseguido pela polícia, torturado e aprisionado.

A Umbanda cresceu na segunda metade do século XX, apesar dos ataques policiais, se ramificando para criar o Candomblé na Bahia.

 

Principais anos após a Ditadura de Vargas

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Passeata contra a censura

Para combater a repressão do governo os terreiros de Umbanda se organizaram. A primeira federação foi fundada por Zélio Fernandino em 1939.

O restabelecimento da democracia em 1945 assinalou o início da liberdade religiosa. Várias federações de Umbanda foram fundadas em São Paulo em 1953. As leis, entretanto, não equivaliam aceitação universal. Os cultos de Umbanda ainda eram considerados suspeitos. A polícia local registrou todos os terreiros. Em 1964  esta lei foi eliminada e só um registro civil era necessário para estabelecer um terreiro.

O período entre ditaturas – 1945 a 1964 – permitiu a expansão da Umbanda. Os politicos, a polícia, e os líderes civis frequentavam os terreiros, especialmente durante os anos de eleição.

Uma pesquisa conduzida pelas antropologistas Lísias Nogueira Negrão e Maria Helena Concone mostram que nos anos 40 e 58 organizações religiosas foram registradas como terreiros de Umbanda em São Paulo enquanto 803 se declaravam Centros Espíritas. Por volta dos anos 50, as posições se reverteram: 1,025 organizações se declararam Terreiros de Umbanda, 845 Centros Espíritas e somente um Terreiro de Candomblé. O pico durante os anos 70 viram 7,627 Terreiros de Umbanda, 856 Terreiros de Candomblé e 202 Centros Espíritas.

O Brasil passou de 50,000 Terreiros nos anos 60 para 300,000 no início dos anos 80. A ditadura militar terminou em meados dos anos 80. O Brasil se tornou uma nação democrática, cada vez mais orgulhosa da sua diversidade cultural. Um novo clima cultural condenou a escravidão e outras ofensas históricas; celebrou a herança africana e o culto aos Orixás (Deuses Yoruba).

Entre os anos 50 e 70 a repressão da polícia diminuiu e os membros da Umbanda aumentaram. Ainda assim, de dentro da igreja Católica os padres denunciavam a Umbanda. A imprensa mais conservadora também se opunha à Umbanda. A igreja Católica não pode tolerar o culto aos espíritos e resentia as comparações entre os Orixás e os santos católicos.

Nada disso impediu os Umbandistas, que se consideravam católicos devotos. Eventualmente o Conselho do Vaticano II (1962-65) aceitou a Umbanda e proclamou uma relação ecumênica ou tolerante com as religiões afro-brasileiras.

compositores
Dorival Caymmi, Luiz Gonzaga, Tom Jobim, Jack Lang, Caetano Veloso e Chico

A Umbanda se tornou parte da cultura popular. Ela se tornou parte da literatura e de canções populares. Jorge Amado escreveu histórias que lidavam com a cultura afro-brasileira. Desde 1960 compositores nobres escreveram canções sobre a Umbanda. Tom Jobim, Toquinho, Vinícius de Moraes, Geraldo Vandré e Clara Nunes são uns dos mais conhecidos. O poeta Vinícius de Moraes casou com sua esposa, Gesse, numa cerimônia de Umbanda presenciada por muitas figuras prominentes da cultura e política brasileiras. Por volta de 1980, somente os seguidores mais puros do Candomblé reagiram contra a Umbanda, a desprezando como um culto sem valor e cafona.

 

Fontes:

– Iemanjá, Rainha Do Mar (por Aliana Zenon)
– Das Macumbas à Umbanda: a construção de uma religião Brasileira (por José Henrique)

– Google Imagens

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