O Padre visita o terreiro

Padre Kaique sempre ficou curioso para investigar os fenômenos mediúnicos e um dia resolveu ir num terreiro que conhecia lá por perto da igreja onde rezava as missas.
Foi chegando na “Casa de caridade vovó Justina”, foi bem recebido e externou seu desejo, os filhos da casa ficaram meio a contragosto mas, visto que a própria dona do terreiro, mãe Alice, aquiesceu sorrindo, o que fazer.
Ele ficou observando cada passo do que conheceria depois ser uma gira.
Ouviu os pontos, a defumação, as orações, dentre elas o “Pai Nosso” que ele não imaginava ser rezado em um terreiro.
Depois viu o chefe dos Ogãs, carinhosamente chamado de “padrinho” começar o ponto de vovó Justina, primeiramente sem som sem nada, somente a voz deles se ouvia no terreiro.

Padrinho: _ Ela é caipira sim senhor.
Corpo mediúnico: _ Ela é caipira.
Padrinho: _ Ela fala errado sim senhor.
Corpo mediúnico: _ Ela é caipira.
Padrinho:_Ela é preta velha sim senhor.
Corpo mediúnico: _ Ela é caipira.
Padrinho: _ Ela é vó Justina sim senhor.
Corpo mediúnico: _ Ela é caipira.

Depois deste primeiro começo, o ponto era tocado e cantado por todos junto dos atabaques.
Padre kaique pensava ver dona Alice girar, se jogar no chão ou coisa do tipo, mas apenas viu ela em uma prece completamente concentrada, e do nada estremeceu um pouco e começou a se arquear para baixo, colocando as mãos na cintura e andando como as antigas cozinheiras de senzala.
O chamado ponto cantado da entidade despertara sua curiosidade e, quando foi permitido que ele falasse com ela ele perguntou.

Padre kaique: _ Boa noite minha senhora.
Vó Justina: _ Bas noiti fio, é uma ligria tê suncê pra bençuá esse cantinhu.
Gentilmente a preta velha pediu a benção do padre e beijou sua mão.
O padre fica ruborizado, não esperava esse comportamento de uma entidade que diziam ser total pureza e sabedoria.
Meio sem jeito ele pergunta:

Padre Kaique: _ Essa música que cantaram para sua chegada, como a senhora me explicaria ela?
Vó Justina: _ Bom, acho que eu vou ter que falar na linguagem habitual para que o senhor possa compreende-la.
E continuou:
_ Este ponto foi composto pela experiência que tive como Abadessa, e ele é composto de três significados, o primeiro da exortação, o segundo do exemplo, o terceiro da constância.
_ Exortação porque o ponto é um convite à vivencia da simplicidade, não precisando de adjetivos excessivos ou títulos ou honrarias para se exercer um bom serviço de devoção ao evangelho.
_ Exemplo porque mostra que eu, como líder regente dessa casa de caridade não estou aqui em posição de superioridade a ninguém, eu sou uma como todos e com todos que estou aprendendo com todos e e trabalhando, não estou aqui como mestra ou professora, estou aqui como serviçal.
_ Constância porque me ensina sempre a manter-me debruçada sobre a essência evangélica do amor e da humildade, como lhe falei fui Abadessa em outra encarnação, mas aqui eles não estão chamando a Abadessa, estão chamando a caipira para o trabalho, todos me assinalam, através do refrão que eu aqui nada mais sou do que uma caipira, e isso para mim é um constante chamado para que eu não me desvie deste caminho.

Padre kaique ficou boquiaberto com o que ouvira, dos ensinamentos contidos num ponto de poucas falas vindas de uma preta velha que afirmava ter sido um Abadessa.

Padre kaique: _ A senhora foi abadessa?
Vó Justina: _ Sim, tive a oportunidade de ter quase o mesmo nome do da minha encarnação como escrava, só que na época meu nome foi Justiniana.

A conversa perdurou com outras perguntas e respostas, mas as três essências do ponto ficaram no coração do reverendo padre por toda sua vida.
Ele não era de frequentar o terreiro e nem mesmo conhecia direito dona Alice ou os outros membros daquele local, mas sempre que tinha chances ia procurar conversar com a nova amiga que havia feito, um espírito.

Fonte: Sabedoria de Preto Velho

A foto utilizada no artigo é ilustrativa, não corresponde ao padre da estória.

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