Na curimba, o som organiza etapas da gira, sustenta a corrente e preserva a memória ritual de cada casa.
Na Umbanda, o trabalho da curimba vai além de “acompanhar” o canto: ele ajuda a organizar a gira, marcar suas etapas e sustentar a comunicação ritual entre corpo, canto e presença espiritual. Em diferentes casas, os ogãs assumem essa condução sonora com os atabaques e outros instrumentos, mantendo uma função que é ao mesmo tempo prática, simbólica e coletiva.
O som ritual não é enfeite: ele organiza a gira
A literatura acadêmica sobre Umbanda trata a música ritual como uma sonoridade voltada ao uso religioso, e não como música em sentido comum. Nesse contexto, os pontos cantados não servem apenas para “embelezar” a cerimônia: eles participam diretamente da condução do rito e da organização da gira.
Uma pesquisa da PUC-SP mostra que os pontos podem ser classificados por função ritual, como abertura, defumação, bater cabeça, invocação, louvação, descarrego, despedida e encerramento. Essa divisão ajuda a entender que o canto marca passagens e orienta o andamento do trabalho espiritual.
Ogãs, curimba e a sustentação do campo sonoro
Em uma fonte institucional de terreiro, o Pai Maneco descreve os ogãs como centrais na curimba, responsáveis por tocar os atabaques e sustentar o campo sonoro da corrente. Em vez de aparecerem apenas como músicos, eles são apresentados como parte da própria estrutura ritual da casa.
A pesquisa da PUC-SP registra que os instrumentos mais comuns no ritual umbandista incluem atabaques, agogô, afoxe, pandeiro, maracas, triângulo, ganzá, adjá e berimbau. A presença desses instrumentos mostra que a musicalidade da Umbanda pode variar entre casas e linhagens, mas costuma ser tratada como componente ativo do fundamento ritual.
Atabaque, corpo e mediação espiritual
Em textos de tradição de terreiro, o atabaque aparece como instrumento de comunicação ritual, descrito como algo que “leva e traz” a presença espiritual na gira. Já o artigo da SciELO sobre a música na Umbanda mostra que médiuns relatam entrar em contato com o mundo simbólico umbandista por meio desse ambiente sonoro, o que sugere uma experiência de concentração, afinação coletiva e passagem ritual.
A mesma pesquisa acadêmica também aponta que, na visão dos praticantes, a produção sonora é atravessada por alteridade. Em outras palavras, o sentido do que é tocado e cantado não se esgota na autoria humana individual, porque o ritual envolve relação com entidades, corrente e casa. Isso ajuda a entender por que a curimba não é mero acompanhamento: ela participa da mediação entre corpo, canto e presença espiritual.
Memória da casa e circulação da musicalidade
Além da gira, a musicalidade umbandista também circula em outros espaços. Uma pesquisa de doutorado registrada na UFRJ identifica festivais de pontos cantados e de composição umbandista, como o Prêmio Atabaque de Ouro, indicando que há reconhecimento e criação musical para além do terreiro.
Esse dado reforça a ideia de que o som na Umbanda também funciona como memória da casa e como forma de circulação de saberes entre praticantes. Cada terreiro pode preservar modos próprios de tocar, cantar e organizar a curimba, sem que isso apague fundamentos compartilhados mais amplos. Como a Umbanda não tem doutrina única, as práticas variam conforme a casa, a linhagem e a região.
Fontes consultadas
- Brazil – ESPÍRITOS COMPOSITORES E INSTRUMENTISTAS: A MÚSICA NA UMBANDA ESPÍRITOS COMPOSITORES E INSTRUMENTISTAS: A MÚSICA NA UMBANDA
- 46 Os instrumentos mais comuns dentro do ritual u
- Brasil – ESPÍRITOS COMPOSITORES E INSTRUMENTISTAS: A MÚSICA NA UMBANDA ESPÍRITOS COMPOSITORES E INSTRUMENTISTAS: A MÚSICA NA UMBANDA
- Umbanda de Nego Véio: O Atabaque
- Quem faz um Ponto Canta um Conto – Terreiro de Umbanda Pai Maneco

