Zé Pelintra e a Capoeira

Não é segredo pra ninguém que boa parte da cultura brasileira descende da mãe África. Observamos na religiosidade, na música, na comida, nos costumes, etc…, uma forte influência daqueles que vieram ao Brasil como escravos e acabaram por se misturar aos outros habitantes, nativos ou não, para formar o povo que hoje chamamos de brasileiro.
Por isso, podemos dizer que a capoeira, o samba, o maracatu, a capoeira, a umbanda e o candomblé, o frevo e tantas outras manifestações culturais são fruto dessa mistura, algumas mais influenciadas pelo lado indígena, outras pelo lado europeu, a maioria delas pelo lado africano. A miscigenação criou uma cultura mestiça.
Na Umbanda, por exemplo, encontramos Zé Pelintra que é um forte exemplo dessa mestiçagem: o malandro, negro de terno branco e punhal de aço puro, mestre do Catimbó (um culto nordestino de origem indígena), sambista e capoeirista. É um fiel representante de uma cultura africana resistente e sobrevivente em solo brasileiro. Nordestino ou carioca, praticante do Catimbó, da Umbanda ou do Candomblé, anda sempre com suas guias dedicadas a seu Orixá no pescoço – diz-se em um de seus mais famosos pontos da Umbanda e Catimbó, que “foi criado por Ogum Beira-Mar, em nome de Deus e de todos Orixás”. Na aba de seu chapéu, encontramos ainda uma pena vermelha, uma homenagem ao Orixá mensageiro Exu.

Mestre Leopoldina: o mestre era um grande devoto de Seu Zé
Mestre Leopoldina: o mestre era um grande devoto de Seu Zé

Seu Zé, como é carinhosamente chamado por seus admiradores, é também um conquistador nato. Conhecedor da noite e dos perigos da vida, anda sempre com seu lenço no pescoço e sua navalha alemã no bolso.

Não é preciso ser capoeirista para saber que muito dessa personalidade de Seu Zé, está ligada também à personalidade histórica do capoeirista. Se retornarmos para um segundo momento na história da capoeira, pós-abolição, vamos encontrar entre os praticantes da arte justamente os malandros, que, sendo exímios capoeiristas, sabiam como escapar de qualquer perigo e estavam sempre atentos ao caminhar pelas ruas. Os capoeiristas também sempre foram “conquistadores natos” do mulherio.
Ainda que afirmar isso nos idas de hoje seja tão polêmico, era no passado também muito natural que os praticantes da capoeira fossem praticantes de alguma religião afrobrasileira, uma vez que essas religiões estão fortemente ligadas ao universo de onde eles e a própria capoeira vieram. Mais do que uma simples prática, a religiosidade do povo africano não é apenas vivida no espaço de um terreiro ou um templo, é algo levado para o dia a dia, não é só uma religião, mas também uma forma de viver e de ver o mundo. E se hoje o preconceito é grande, imagine então naquela época…

 

Um pouco mais a frente na história, encontramos entre os angoleiros figuras tão malandras quanto Seu Zé, principalmente na capoeira Angola, onde os malandros chegavam em seus ternos impecáveis, chapéu de lado, e jogavam sem que uma mancha de poeira sequer maculasse o branco de suas roupas.

 

Vários pontos do malandro Zé Pelintra tratam de sua relação com a capoeira, como esse:

 

“moça não tenha medo do seu marido
se ele é bom na faca, eu sou no facão
se ele é bom na reza, eu na oração
se ele bate em cima, eu vou na rasteira
sou da capoeira”

 

Tais pontos – ponto é como se chama uma cantiga na Umbanda – falam do mundo de Seu Zé, um mundo cheio de perigos, mas também cheio de diversão. Tal qual a capoeira: numa roda um capoeirista pode se divertir, mas sabe dos perigos que enfrentará. E é aquele que melhor usar a malandragem que conseguirá se sair melhor na roda, escapando das rasteiras e das investidas “na maldade”, como se diz na capoeira, dos outros jogadores.

A tão famosa “mandinga”, uma energia quase palpável na capoeira, que todo capoeirista já sentiu, é uma energia herdada dessa época em que era preciso mais do que esperteza e habilidade no jogo, mas também – opinião própria – uma proteção espiritual para o capoeira. Negro, pobre de recursos materiais, mas rico de recursos culturais, e discriminado, perseguido pela polícia, pelo preconceito, por outros capoeiristas… A mandinga é uma energia que vem da época em que o negro escravo precisava fugir da senzala e lutar pela liberdade e para isso contava com um auxílio divino. Então, por mais incrível que pudesse parecer, o escravo e o malandro conseguiam escapar das mais inacreditáveis situações…

Este é um assunto bastante complexo e espero voltar a tratar dele em breve. Para finalizar, por hoje, digo que a mandinga e a malandragem sempre serão pilares básicos nos fundamentos da capoeira. Espero que tenham bom senso e leiam este texto livres de preconceitos e mesquinharias… Axé!

(Soldado Capoeira)

Continua…

 

Bibliografia -pra quem se interessar indico estes livros:

 

Malandro Divino – a vida e a lenda de Zé Pelintra, personagem mítico da Lapa carioca, de Zeca Ligiero

 

Os fiéis da navalha, de Adriana Albert

http://ahoradacapoeira.blogspot.com.br/2010/08/ze-pelintra-e-capoeira.html

Umbanda e Capoeira: unidas pela espiritualidade

Sei que você que acabou de ler o título, se perguntou: o que tem a ver uma coisa com outra? Ou então: “o que esse branquelo pode falar sobre isso?” Pois é, mas vou explicar, afinal sou umbandista e capoeirista. Só que, o que importa se sou branco? No Brasil? Quem pode dizer quem é branco, negro, índio, se essa é a mistura de raças que nos tornou o que somos hoje? Pois sim.. Sem mais delongas, vamos às explicações.

Quem é umbandista de fato e direito, sabe o porquê dos negros virem para o nosso país. Não que os livros de história estejam errados, mas há algo mais profundo que eles não contam, por desconhecerem os reais motivos para tal empreitada.

Pois bem, como os negros já aportados (?) no Brasil, em meio à escravidão, maus tratos, enfim, “surgiu” a capoeira. Digo “ surgiu”, pois não se sabe com precisão sua verdadeira origem, mas que foi um ponto crucial para que os negros criassem resistência, fugissem e formassem os quilombos.

Ouviu – se falar em capoeira nas invasões holandesas, e a própria guarda imperial era formada por capoeiristas, inclusive o monarca, D. Pedro I, a praticava.

“A palavra capoeira vem de origem tupi Caápu – êra, e quer dizer “mato ralo” ou “mato cortado”. Aonde justamente os negros se escondiam e emboscavam seus perseguidores.

Aonde eles se encontravam nisso tudo? Pois bem, com a vinda dos negros, trouxeram consigo o culto aos Orixás, mas com suas diversificações, afinal, era de lugares distintos e os cultuavam de forma diferente, mas não entremos nesse mérito, afinal, não é o nosso objetivo.

Com o advento da Umbanda, por meio do Caboclo Sete Encruzilhadas, foi designado que a Umbanda estaria de braços abertos que quisessem dela fazer parte em prol da caridade. E quem veio fazer parte dela? Os espíritos dos antigos escravos, denominados pretos velhos, que vêm na linha de Yorimá. Sim, os mesmos escravos que eram capoeiristas, que conheceram a verdadeira raiz desse jogo.

Entendeu agora porque se completam? Bom, segundo um Preto – Velho muito meu amigo: “a capoeira além de luta e arte, é a manifestação da própria espiritualidade. Você entra na roda e consegue sentir a magia, interagir com o astral de nossa ancestralidade, se ligar no todo poderoso e estar na presença dos espíritos. É dançar com a própria manifestação real do mundo espiritual”. Há uma definição de um mestre de capoeira que diz: “O verdadeiro capoeirista não é aquele que joga com o corpo, e sim, que deixa o corpo ser movimentado pela alma”.

Partindo dessa linha de raciocínio, digo que a capoeira deve ser jogada com amor de pai Oxalá, com a força de Ogum, com a certeza da flecha de Oxossi, com a justiça de Xangô, com a alegria e brincadeira de Yori, leve e solto como as ondas do mar de Yemanjá, doce como as águas de Oxum, com a garra de Yansã, e com a sabedoria de Nanã.

É assim que as duas se completam; na arte, na filosofia, na cultura, na musicalidade, e claro, nos mistérios. Como disse um velho mestre: “Capoeira, mandinga de escravo com ânsia de liberdade. Teu princípio não tem método, seu fim é inconcebível ao mais sábio dos mestres”.

Assim como é a Umbanda, tem começo, meio, mas não tem fim. E eu, como Umbandista e Capoeirista, sei muito bem disso.

Axé á todos

Iê, salve a capoeira!!!

Salve todos os Pretos – Velhos!!!

Salve a Umbanda!!!

CCT Jorge Cristiano / Contra-Mestre Jiraya

http://temploespiritaogumege.blogspot.com.br/2013/08/umbanda-e-capoeira.html