Como os pontos cantados organizam a gira, dão voz a Caboclos, Pretos-Velhos, Exus e Pomba Giras, e explicam sentidos, ritmos e símbolos dos rituais de Umbanda
As canções entoadas nas giras fazem mais do que emocionar, elas organizam o trabalho espiritual. Os pontos cantados chamam, saúdam e orientam as entidades, guiando tempos, ritmos e gestos no terreiro.
Cada linha de atuação, Caboclos, Pretos-Velhos, Exus e Pomba Giras, tem repertórios próprios. Melodias, toques de atabaque e letras codificam forças, elementos da natureza e estilos de fala das falanges.
Este conteúdo apresenta a liturgia, a função e a criação dos pontos cantados, e mostra como as letras revelam as características de cada entidade, conforme pauta recebida sobre pontos cantados e suas linhas.
O que são pontos cantados
Na tradição, ponto é oração em forma de música. Há pontos de abertura, firmeza e encerramento, além de chamadas e agradecimentos. A curimba ajusta vozes e atabaques, com o ogã conduzindo coro e ritmo.
Os pontos cantados atuam como chave vibratória. Ao nomear a entidade, citar seu domínio e louvar suas qualidades, a canção alinha médiuns, sintoniza a gira e favorece a incorporação com segurança e respeito.
Função nos rituais e na gira
Um ponto de abertura prepara o terreiro, firma a corrente e eleva a vibração. Em seguida, pontos de chamada trazem a linha de trabalho, enquanto pontos de descarrego limpam o campo energético dos consulentes.
O ponto de encerramento agradece, fecha a gira e desativa a força ritual. Entre eles, toques variam, mais rápidos em Exus e Pomba Giras, mais serenos em Pretos-Velhos, sempre em coerência com a ética do terreiro.
Como nascem e quem cria
Muitos pontos cantados são recebidos mediunicamente, surgem em gira como inspiração da entidade. Outros são compostos por ogãs e curimbeiros, preservando tradição, doutrina e cadência adequada ao toque.
A criação segue critérios, tonalidades compatíveis com o toque, linguagem simples e direta, clareza sobre quem é invocado. O foco é educar pela música, sem vaidade, mantendo a força espiritual acima do autor.
O que as letras revelam sobre cada linha
Nos Caboclos, as letras evocam mata, caça, vento, flecha e coragem. Termos como pena, aroeira e Jurema indicam conexão com a natureza, cura pelas ervas e atuação de proteção e estratégia.
Nos Pretos-Velhos, o canto realça humildade, paciência e sabedoria. Palavras como cafezinho, arruda e benção traduzem acolhimento, firmeza de cabeça e força ancestral no consolo e no conselho.
Nos Exus, as letras tratam de encruzilhadas, caminhos e justiça. Citações a tranca, fogueira e guia ressaltam abertura de caminhos, proteção e equilíbrio de demandas, sempre sob a lei sagrada.
Nas Pomba Giras, o lirismo exalta autoestima, liberdade e retidão. Referências a rosa, espelho e sete saias falam de magnetismo, vaidade bem resolvida e limpeza de vínculos afetivos e emocionais.
Os pontos cantados também educam sobre ética. Ao enfatizar respeito, caridade e responsabilidade, ensinam que cada linha atua em sua vibração, com propósito claro, sem confundir culto com espetáculo.
Aprender escutando é essencial. A repetição dos refrões fixa conceitos, sinais e nomes sagrados, enquanto o coro fortalece a egrégora. Assim, música vira catequese prática, simples e profunda ao mesmo tempo.
Na prática, a curimba lê o momento da gira, ajusta o tom e escolhe o ponto certo. Essa sensibilidade ritual garante fluidez, evitando excessos, e assegura que a canção sirva ao trabalho espiritual, não ao ego.
Por isso, pontos cantados são memória viva. Eles registram histórias de entidades, traçam mapas de forças e reconstroem, a cada canto, a ponte entre terreiro, natureza e o sentido comunitário da fé.
