Pesquisas recentes mostram centralidade das folhas nos terreiros, variações regionais e aproximações parciais com a literatura científica.
Na Umbanda, as ervas aparecem como parte importante de práticas de purificação, defumação e cuidado, mas seu uso não é uniforme em todo o país. Estudos recentes ajudam a entender como o saber de terreiro dialoga com a pesquisa acadêmica, sem reduzir a força ritual das plantas a uma promessa genérica de cura.
Ervas como fundamento ritual nos terreiros
Levantamentos recentes indicam que as ervas ocupam lugar central em muitos terreiros de Umbanda. Elas aparecem em práticas de purificação, defumação e cura, mostrando que as folhas não são um detalhe periférico, mas parte estruturante da relação da religião com a natureza e com o cuidado espiritual.
Ao tratar desse tema, é importante lembrar que a Umbanda não possui uma doutrina única e fechada para todos os terreiros. O modo de escolher, preparar e empregar as ervas pode variar conforme a casa, a linhagem, a região e o contexto ritual. Por isso, qualquer descrição geral precisa ser lida como tendência observada em pesquisas, e não como regra universal.
Ossain e a autoridade simbólica das plantas
Em parte da tradição, Ossain, também grafado Ossaim, aparece como referência de autoridade sobre as plantas. A dissertação da PUC Goiás aborda o “mito de Ossaim, orixá das ervas”, enquanto o levantamento do IFAL informa que ele é homenageado e invocado para garantir o uso correto e respeitoso das plantas.
Aqui é importante distinguir Orixá de entidade. Orixás são forças divinas e simbólicas presentes em religiões de matriz africana; já entidades, na Umbanda, são outras presenças espirituais cultuadas nas giras e nos trabalhos. Não é correto misturar essas categorias como se fossem a mesma coisa.
Essa centralidade de Ossain ajuda a explicar por que o tema das ervas não é apenas botânico. Nas fontes consultadas, ele aparece como um fundamento de respeito, escolha e responsabilidade no trato com as folhas, o que liga conhecimento religioso, memória histórica e prática ritual.
O que a pesquisa científica recente conseguiu observar
A pesquisa da UERGS traz um dado relevante para o debate: 63,6% das plantas citadas por umbandistas tinham alguma indicação terapêutica na literatura científica. Isso sugere aproximações entre saber religioso e conhecimento acadêmico, mas não autoriza concluir que todo uso ritual esteja automaticamente validado pela ciência.
O próprio estudo aponta a carência de pesquisas interdisciplinares sobre a atividade biológica das plantas usadas nos terreiros. Em outras palavras, ainda há muito a investigar antes de transformar concordâncias parciais em consenso.
Já o estudo do IFAL Penedo mostra uma abordagem laboratorial mais detalhada: as pesquisadoras aplicaram FTIR e PCA para identificar fitoquímicos e comparar semelhanças e diferenças entre seis ervas estudadas. Esse tipo de análise reforça que a discussão sobre folhas na Umbanda pode ser tratada com seriedade acadêmica, sem apagar o contexto religioso em que elas são usadas.
Diversidade regional e cuidado com generalizações
As fontes também reforçam que o uso das ervas não é igual em todo o Brasil. O IFAL destaca que aspectos da religião podem mudar conforme a região onde a Umbanda é praticada, o que abre espaço para observar diferenças locais na escolha das folhas e nos modos de preparo.
Essa diversidade é importante para evitar matérias simplificadoras, como se existisse uma lista fixa e obrigatória de ervas para toda casa de Umbanda. O que as pesquisas mostram é um campo vivo, atravessado por tradição, transmissão oral, experiência de terreiro e diálogo com estudos científicos.
A dissertação da PUC Goiás acrescenta uma dimensão histórica ao tema ao registrar que o uso de ervas para fins curativos e ritualísticos é antigo e atravessa camadas da formação brasileira, inclusive no período colonial, entre negros e indígenas. Isso ajuda a situar a prática dentro de uma memória longa, e não como moda recente ou curiosidade folclórica.
Cuidado, responsabilidade e limites do que a ciência confirma
A leitura mais responsável do tema evita a ideia de que ervas seriam “boas para tudo”. As fontes consultadas mostram um uso ritual, terapêutico e simbólico, mas não sustentam promessas universais de cura. Em reportagem, o mais adequado é tratar as folhas como parte de um sistema de cuidado situado, com valor religioso e com possíveis aproximações, em alguns casos, com a literatura científica.
Também é importante não transformar o diálogo com a ciência em desautorização da experiência de terreiro. A pesquisa recente aponta convergências parciais e lacunas, não uma equivalência total entre validação científica e fundamento religioso.
Para o leitor iniciante, a principal lição é que as ervas na Umbanda precisam ser compreendidas com respeito ao contexto em que são usadas. Isso significa reconhecer sua força simbólica e ritual, aceitar a diversidade entre casas e ouvir o que as pesquisas conseguem confirmar sem extrapolar o que elas de fato demonstram.
Fontes consultadas
- Potencial de uso medicinal e místico de plantas utilizadas em rituais de umbanda | Revista Eletrônica Científica da UERGS
- Pesquisadoras do Ifal Penedo fazem estudo sobre ervas utilizadas em práticas umbandistas — Instituto Federal de Alagoas
- TEDE: As ervas nos rituais de umbanda: magia e poder da natureza
