Pesquisa acadêmica mostra a prática como cuidado transcultural, com variações entre terreiros e fronteiras entre religião e biomedicina.

As chamadas cirurgias espirituais na Umbanda aparecem em estudos acadêmicos como uma prática de cuidado ligada à cultura religiosa do terreiro, e não como procedimento biomédico. A pesquisa ouvida em terreiros do Sudeste mostra que a experiência é diversa, com modos próprios de preparo, execução e orientação depois do trabalho.

O que a pesquisa chama de cuidado transcultural

Um estudo publicado na Revista Brasileira de Enfermagem descreve as cirurgias espirituais na Umbanda como uma forma de cuidado transcultural. Nesse enquadramento, o termo não indica um procedimento médico no sentido hospitalar, mas uma prática de cuidado compreendida dentro da cultura religiosa do grupo pesquisado.

Isso ajuda a entender por que a linguagem do terreiro pode dialogar com o repertório da saúde sem se confundir com ele. O artigo observa o uso da palavra “cirurgia”, mas trata essa expressão como parte de uma lógica ritual e simbólica própria da Umbanda, e não como reprodução literal da medicina biomédica.

Como a prática aparece nos terreiros pesquisados

A pesquisa entrevistou médiuns de três terreiros do Sudeste, localizados em Magé e Teresópolis, no Rio de Janeiro, e em Além Paraíba, em Minas Gerais. Os relatos mostram que não existe um único modo de fazer: há variações de procedimento, de preparo e de orientação pós-trabalho entre as casas ouvidas.

Essa diferença é importante para leitores iniciantes. A Umbanda não possui uma doutrina única que padronize todas as práticas, e o estudo reforça exatamente essa diversidade. Em vez de uma receita geral, aparecem orientações específicas de cada terreiro, com formas próprias de condução do trabalho espiritual.

Entidades citadas e a lógica interna do trabalho

Entre as entidades mencionadas como atuantes nesses trabalhos estão Orientais, Caboclos, Pretos-Velhos, Nanã, Iansã e Exu, cada qual “dentro de seu domínio”, segundo o entendimento dos participantes da pesquisa. O ponto central aqui é respeitar a diversidade de funções atribuídas às entidades pelos próprios médiuns entrevistados.

Ao mesmo tempo, é importante não misturar categorias: no vocabulário umbandista, Orixás e entidades não são a mesma coisa, embora possam aparecer relacionados em determinados fundamentos de casa. O estudo não transforma essa variedade em regra universal; ele registra como os participantes explicam o trabalho espiritual em seu próprio contexto religioso.

Repouso, gaze queimada e o limite com a medicina

O artigo aponta que a linguagem do terreiro pode incorporar termos próximos do universo biomédico. Há menção a “cirurgia”, a orientação de repouso depois do trabalho e até a procedimentos simbólicos, como o uso de gaze queimada após a prática. Esses elementos mostram uma aproximação de linguagem, mas não uma equivalência com a clínica hospitalar.

A diferença central destacada pela pesquisa é que não aparecem elementos equivalentes a corte físico ou anestesia. Por isso, o nome “cirurgia” funciona mais como analogia ritual do que como procedimento biomédico literal. Essa distinção é essencial para evitar leituras simplificadoras ou sensacionalistas sobre o tema.

O que a dissertação acrescenta sobre doença e integralidade

A dissertação localizada na BDTD amplia a discussão ao tratar o ritual bantu-ameríndio e situar as cirurgias espirituais como espaço de enfrentamento da doença e de cuidado integral em saúde, segundo a visão dos próprios médiuns. O foco recai sobre a experiência religiosa de cuidado, não sobre promessa de substituição de tratamentos convencionais.

Em termos editoriais, esse conjunto de fontes mostra que a prática é pouco documentada em literatura comum aos terreiros, em parte porque a Umbanda é descrita como religião iniciática e oral. Por isso, escutar a tradição e seus praticantes faz parte do próprio método de pesquisa, além de ajudar a compreender como cada casa organiza seus fundamentos.

Fontes consultadas