Quando destroem imagens de entidades e invadem terreiros, não é só a fé que sofre, é a memória, o território e a dignidade de povos negros e indígenas
A ofensiva contra terreiros e símbolos sagrados expõe como a intolerância religiosa opera no país, mais que vandalismo, trata-se de violência contra histórias, corpos e memórias.
Ao quebrar imagens de orixás, caboclos e pretos velhos, a mensagem é política, tenta-se negar a presença negra, indígena e popular no bairro, na cidade e na cultura.
Essa disputa ocorre na rua e nas redes, alimentada por desinformação e discurso de ódio, conforme matéria sobre casos de intolerância contra terreiros, imagens e símbolos de entidades.
Quando a violência atinge a memória coletiva
Todo ataque a um terreiro atinge também famílias, rodas de aprendizado e redes de cuidado. O silêncio após a invasão ecoa medo, e o medo tenta expulsar tradições do espaço público.
Destruir atabaques, assentamentos e imagens sagradas busca cortar vínculos com ancestrais. Não é só a perda de objetos, é a tentativa de apagar a memória coletiva de uma comunidade.
Em muitos casos, o alvo são referências como Exu, Iansã e Oxum. A criminalização simbólica dessas entidades sustenta a intolerância religiosa e legitima novas agressões.
Quando atacam as entidades, atacam quem? Atacam mães e pais de santo, crianças iniciadas, vizinhos que se reconhecem no toque do tambor e no cuidado com o axé, atacam o cotidiano.
Racismo religioso, identidade e laicidade do Estado
A intolerância religiosa contra candomblé e umbanda tem raízes no racismo religioso. O alvo é a fé, mas também a identidade negra e indígena que sustenta esses modos de vida.
Estereótipos antigos criminalizam ritos e associam orixás ao mal. Essa narrativa colonial cria pânico moral, desumaniza pessoas e serve de pretexto para perseguições e expulsões.
O Estado é laico, por isso deve garantir a liberdade religiosa e a segurança dos espaços de culto. Combater a intolerância religiosa é política de direitos, não disputa de doutrina.
Quando agentes públicos silenciam, reforçam a impunidade. A defesa da diversidade exige ações, proteção aos terreiros, responsabilização de agressores e educação para o respeito.
Quem perde quando o medo fecha as portas do terreiro
Quando a violência interrompe giras e festas, perde a cidade. Os terreiros oferecem acolhimento, alimentação, escuta, e mantêm viva a cultura, o canto, a dança e a cura.
Fechar uma casa de santo rompe redes de solidariedade, empobrece a vida cultural e apaga referências de jovens que encontram ali pertencimento e caminhos de proteção.
O apagamento atinge também o patrimônio, rezas, toques, folhas e saberes. É um dano social amplo, que vai muito além do ato de quebrar uma imagem ou pichar um portão.
Na prática, a intolerância religiosa tenta impor um único modo de crer e existir. A pluralidade brasileira, negra, indígena e popular, é a principal vítima dessa violência.
Como reagir, caminhos de proteção e denúncia
Registrar boletim de ocorrência, reunir fotos e vídeos e acionar Defensoria e Ministério Público são passos essenciais. A documentação fortalece a responsabilização dos agressores.
Redes de apoio, coletivos jurídicos e organizações de direitos humanos podem orientar sobre medidas protetivas e reparação. A denúncia ajuda a quebrar o ciclo de medo.
Políticas públicas devem garantir segurança, formação de agentes, campanhas educativas e proteção a patrimônios culturais. Prevenção e resposta precisam caminhar juntas.
Educar para o respeito, combater fake news e valorizar terreiros como lugares de cultura e cuidado são antídotos à intolerância religiosa. A cidade inteira ganha com isso.



