O uso do Coco nos Terreiros

Os povos do Caribe (particularmente os cubanos), pela impossibilidade de obterem o obi, passaram a utilizar o coco em sua substituição, inclusive num tipo de jogo denominado “Oráculo de Biaguê”, onde quatro pedaços de coco são usados em substituição aos quatro segmentos do obi.

A utilização do coco é de tal forma popularizada, que este vegetal chega a ser chamado de obí, designando-se o verdadeiro obí, como obí-kola. O coco é utilizado como oferenda principal aos Orixás, Eguns, Exús e até mesmo a Ori, entrando em muitas formas de borí. Quando Obatalá, dono do coco, reuniu todos os Orixás para dar-lhes mando e hierarquia, isto foi feito embaixo de um coqueiro. Obatalá colocou aos pés de cada Orixá um coco partido, por isso, todos os Orixás têm direito ao coco, embora o coco inteiramente descascado, seja um direito exclusivo de Obatalá. Todos os Orixás sentaram-se ao redor do coqueiro para ouvirem com muito respeito e atenção as instruções de Obatalá, com exceção de Obaluaye que se mostrou relutante em aceitar as ordens e orientações que lhe eram dirigidas. Obatalá no entanto, conseguiu convencê-lo e, com muita paciência, fez com que acatasse suas ordens e orientações. Desde então, não é possível que se proceda a nenhum ritual sem que se ofereça antes, coco aos Eguns e aos Orixás.

AS OFERENDAS DE COCO.

Sempre que se quiser oferecer coco a Egun, Exú ou Orixá, o seguinte procedimento deve ser adotado: Escolhe-se um coco maduro, rompe-se a casca externa, retira-se a parte comestível e joga-se a casca grossa fora. A casca mais fina (espécie de película que fica agarrada à parte branca) é mantida, exceto quando a oferenda é destinada à Obatalá, quando somente a parte branca é ofertada). Corta-se quatro pedaços de tamanhos mais ou menos equivalentes, lava-se bem estes quatro pedaços, coloca-se num prato branco com a parte branca virada para cima e arreia-se no pé do Orixá ao qual se destina a oferenda.

Fonte: http://povo-umbanda.blogspot.com.br/

O Padre visita o terreiro

Padre Kaique sempre ficou curioso para investigar os fenômenos mediúnicos e um dia resolveu ir num terreiro que conhecia lá por perto da igreja onde rezava as missas.
Foi chegando na “Casa de caridade vovó Justina”, foi bem recebido e externou seu desejo, os filhos da casa ficaram meio a contragosto mas, visto que a própria dona do terreiro, mãe Alice, aquiesceu sorrindo, o que fazer.
Ele ficou observando cada passo do que conheceria depois ser uma gira.
Ouviu os pontos, a defumação, as orações, dentre elas o “Pai Nosso” que ele não imaginava ser rezado em um terreiro.
Depois viu o chefe dos Ogãs, carinhosamente chamado de “padrinho” começar o ponto de vovó Justina, primeiramente sem som sem nada, somente a voz deles se ouvia no terreiro.

Padrinho: _ Ela é caipira sim senhor.
Corpo mediúnico: _ Ela é caipira.
Padrinho: _ Ela fala errado sim senhor.
Corpo mediúnico: _ Ela é caipira.
Padrinho:_Ela é preta velha sim senhor.
Corpo mediúnico: _ Ela é caipira.
Padrinho: _ Ela é vó Justina sim senhor.
Corpo mediúnico: _ Ela é caipira.

Depois deste primeiro começo, o ponto era tocado e cantado por todos junto dos atabaques.
Padre kaique pensava ver dona Alice girar, se jogar no chão ou coisa do tipo, mas apenas viu ela em uma prece completamente concentrada, e do nada estremeceu um pouco e começou a se arquear para baixo, colocando as mãos na cintura e andando como as antigas cozinheiras de senzala.
O chamado ponto cantado da entidade despertara sua curiosidade e, quando foi permitido que ele falasse com ela ele perguntou.

Padre kaique: _ Boa noite minha senhora.
Vó Justina: _ Bas noiti fio, é uma ligria tê suncê pra bençuá esse cantinhu.
Gentilmente a preta velha pediu a benção do padre e beijou sua mão.
O padre fica ruborizado, não esperava esse comportamento de uma entidade que diziam ser total pureza e sabedoria.
Meio sem jeito ele pergunta:

Padre Kaique: _ Essa música que cantaram para sua chegada, como a senhora me explicaria ela?
Vó Justina: _ Bom, acho que eu vou ter que falar na linguagem habitual para que o senhor possa compreende-la.
E continuou:
_ Este ponto foi composto pela experiência que tive como Abadessa, e ele é composto de três significados, o primeiro da exortação, o segundo do exemplo, o terceiro da constância.
_ Exortação porque o ponto é um convite à vivencia da simplicidade, não precisando de adjetivos excessivos ou títulos ou honrarias para se exercer um bom serviço de devoção ao evangelho.
_ Exemplo porque mostra que eu, como líder regente dessa casa de caridade não estou aqui em posição de superioridade a ninguém, eu sou uma como todos e com todos que estou aprendendo com todos e e trabalhando, não estou aqui como mestra ou professora, estou aqui como serviçal.
_ Constância porque me ensina sempre a manter-me debruçada sobre a essência evangélica do amor e da humildade, como lhe falei fui Abadessa em outra encarnação, mas aqui eles não estão chamando a Abadessa, estão chamando a caipira para o trabalho, todos me assinalam, através do refrão que eu aqui nada mais sou do que uma caipira, e isso para mim é um constante chamado para que eu não me desvie deste caminho.

Padre kaique ficou boquiaberto com o que ouvira, dos ensinamentos contidos num ponto de poucas falas vindas de uma preta velha que afirmava ter sido um Abadessa.

Padre kaique: _ A senhora foi abadessa?
Vó Justina: _ Sim, tive a oportunidade de ter quase o mesmo nome do da minha encarnação como escrava, só que na época meu nome foi Justiniana.

A conversa perdurou com outras perguntas e respostas, mas as três essências do ponto ficaram no coração do reverendo padre por toda sua vida.
Ele não era de frequentar o terreiro e nem mesmo conhecia direito dona Alice ou os outros membros daquele local, mas sempre que tinha chances ia procurar conversar com a nova amiga que havia feito, um espírito.

Fonte: Sabedoria de Preto Velho

A foto utilizada no artigo é ilustrativa, não corresponde ao padre da estória.

A limpeza do terreiro

Entramos no Recanto e vimos poucos colaboradores encarnados. Faltava, ainda, algumas horas para o início dos trabalhos e a rotina não se modificara: alguns lavavam o chão, outro encerava e limpava as cadeiras da assistência, a dirigente cuidava de seus afazeres com os copos, águas, velas e ervas. De quando em quando um ou outro comentava observações do cotidiano […].

– Vejam além das aparências, vasculhem além as formas e dos dogmas, lembrem-se da rogativa evangélica e tenham “olhos de ver” e “ouvidos de ouvir”. [palavras do Mentor que nos orientava].

A fim de que a lição se firmasse ainda mais inconfundível em nós, o velho acariciou-me a fronte e solicitou que eu acompanhasse mais aproximadamente a limpeza do ambiente físico. O seu toque me proporcionou maior poder visual. Rapidamente, percebi que a água e o sabão não limpavam apenas as pedras, retirando-lhes a poeira, mas de alguma forma percebia que eram retirados dejetos mentais e toda uma sorte de fluidos espirituais densos […].

Ao simples acender de uma vela, acompanhada pela prece silenciosa e muito sincera da dirigente, percebemos que a chama passou a produzir uma luz avermelhada e calor muito diferentes daquelas a que estávamos acostumados a usar, quando “vivos” ; isso fez-me refletir mais profundamente sobre esse ato de devoção e atitude ritualística. Conforme o médium rezava, acendia as velas e punha seu coração em sintonia com as Inteligências Superiores da casa, de seu tórax e mente brotavam energias brilhantes e elásticas e nos foi possível observar que as velas em si formavam uma grande cadeia energética, algo como uma corrente psico-magnética, que ia sendo emaranhada por todo o recinto, delimitando, assim, os espaços para os trabalhadores e visitantes. Essa cadeia energética abrangia todo o recinto, nas duas feições, material e espiritual, sob a forma de estrela. Não percebemos quem a manipulava ou construía, a impressão é que esta corrente se produzia por si própria.

Na assistência, a limpeza das cadeiras e do chão proporcionava ambiente sadio e higiênico. As paredes, nas quais havia vários tecidos com pontos riscados dos guias orientadores do Recanto, apresentavam-se limpas; em nenhum lugar observamos elementos deletérios.

As imagens do altar possuíam uma espécie de “aura” que até então eu não havia percebido. Pulsavam, vibravam…davam-nos a entender que estavam vivificadas por algum processo desconhecido e intrigante. Não é que elas se movessem, piscassem ou coisa parecida…mas…é…como um quartzo, como os cristais. Aproximando-nos respeitosamente e tocando-as de leve, percebemos de pronto porque tantos crentes e em tão diversificadas religiões fazem questão de tocar imagens dos seus santos […]. A ligação afetiva, a admiração, a devoção, a adoração, enfim, a enorme fé dos crentes, cujas preces mesclam rogativas e solicitações, agradecimentos e bênçãos, impregna-as de fluidos espirituais incontestes. Os espíritos “representantes dos Orixás”, então, transmutam-nas em energia luminosa e salutar, provocando tal “aura”. Temos assim, nesse circulo virtuoso, um verdadeiro canal de intercâmbio espiritual e apoio aos encarnados, muito longe dos supostos “ídolos de barro” e da primitiva adoração de imagens.

Admirado, percebi Cláudio [outro amigo espiritual] entretido com assunto parecido. Chamou a minha atenção para um fenômeno curioso que percebera minutos atrás: ante a aproximação de determinado médium, as plantas reagiam espiritualmente, ou seja, aos nossos olhos ganhavam em brilho e cor, tornavam-se mais…”vivazes”…Com outros, o fenômeno não se repetia.

– Toda a casa está impregnada da energia vital dos médiuns, assistentes e demais espíritos que nos visitam ou dedicam horas produtivas entre nós. Nesse arcabouço de paus e pedras, tijolos e cimento, tinta, cal, etc., vão se sobrepondo, em camadas, amor e ódio, resignação e rebeldia, orgulho, vaidade, egoísmo, humildade, desprendimento e altruísmo, obsessão e entendimento, e todos os demais sentimentos e pensamentos, racionais e emocionais, elevados, obscuros ou indiferentes. Não há “coisa alguma” insensível nessa casa. Em função das trocas de fluidos observadas, possibilita-se aos encarnados receberem influências das inteligências desencarnadas, positivas ou negativas, densas ou sutis, de fundo material ou espiritual, em suas vidas. Naturalmente, esse fenômeno ocorre em todos os lugares, em todas as casas e templos, etc., mas variável em maior ou menor grau segundo a fé, a consciência e o esforço desprendido para tal mister. Mesmo os irmãos distanciados destes conhecimentos, involuntário ou propositalmente, possuirão, sem dúvida, objetos e locais impregnados de sua energia […].

Estávamos estupefatos. Nunca supuséramos que os trabalhos de Umbanda poderiam ter tamanha riqueza de fenômenos e envolvimento de entidades espirituais de elevados dotes morais. Aqui e ali, tudo respirava organização e disciplina, intercâmbio e respeito.

(trechos extraídos da obra Recanto de Luz, pelo espirito Eusébio e médium Luís Carlos Rapparini)

O que é um assentamento?

Assentamento é o local onde são colocados alguns elementos com poderes magísticos, com a finalidade de criar um ponto de proteção, defesa, descarga e irradiação.
Um assentamento pode ser destinado a uma só força ou poder ou a varias. Mas, em geral, faz-se um para cada força ou poder que se deseja assentar.

Por que assentar uma força ou poder?

Bom, as forças vivem no plano espiritual e os poderes vivem no plano divino da criação e, a partir deles, enviam-nos suas vibrações, auxiliando os trabalhos espirituais que são realizados nos Centros de Umbanda.

Esse auxilio é natural porque se processa religiosamente. Mas como em um trabalho espiritual vêm pessoas com poderosas cargas negativas, é preciso que exista no plano material pontos de descarga que possam absorvê-las e enviá-las de volta às faixas vibratórias negativas.

Esta é uma das muitas funções de um assentamento de força e de poderes.

A entidade assentada (Orixá ou guia espiritual) tem no assentamento elementos com poderes mágicos, os quais utilizam ativando-os segundo as necessidades do Centro, do trabalho espiritual e dos médiuns.

Em regra, faz-se um assentamento central e daí em diante começa a firmeza de outras forças ou de outros poderes ao seu redor, aumentando seu campo de ação e de atuações.

Se é o assentamento de um Orixá, outros não devem ser assentados ao redor ou ao lado dele, porque cada um é um poder realizador em si mesmo, e dois ou mais assentamentos dentro de um mesmo ambiente criam dois pontos distintos que farão a mesma coisa e o recomendado é que, caso alguém queira assentar dois ou mais guias ou Orixás, então deve reservar um ambiente para cada um, separando-os e isolando-os para que suas vibrações, irradiações, ações e atuações não se misturem e não se confundam. Por isso existem assentamentos e firmezas.

Os assentamentos criam vórtices ou “pontos de forças”, enquanto as firmezas de outros guias e Orixás dotam-no de um maior poder de realização.

Esse aumento de poder de realização deve-se ao fato de que os guias e Orixás firmados ao redor do assentamento central “emprestam-lhe” suas forças e poderes e abrem-lhe seus campos de ações e atuações, aumentando o leque de opções ao guia ou ao Orixá assentado, que lhe repassará atribuições ás quais exercerão com desenvoltura, porque terão no assentamento um poderoso ponto de descarga, de proteção e de auxilio nas suas ações mais profundas.

Normalmente se assentam o Guia-Chefe e o Orixá regente da coroa do dirigente espiritual, assim como ao se Exu e Pombajira guardiã.

Os assentamentos do guia chefe e do Orixá devem estar localizados dentro das construções que abriga o terreiro.
Os assentamentos do Exu e Pombajira guardiã devem ser feitos do lado de fora da construção principal que abriga o terreiro, ainda também possa estar dentro de outra construção de porte menor.

O ideal (ainda que isso nem sempre seja possível) é que os assentamentos dos Orixás e dos guias chefes da direita e da esquerda se localizem em cômodos isolados e com acesso restrito, inacessível ao publico.

Quando o Centro não tem espaço para tanto, ai o recomendado é que se assentam o Orixá e o guia chefe da direita sob o altar e o Exu e Pombajira guardiã em uma casinhola na entrada do terreno que abriga o terreiro.

Centros localizados em terrenos e construções amplas tem mais facilidade para fazê-los. Já nos menores, ai é preciso um pouco de criatividade para fazer assentamentos e as firmezas ao seu redor.

Fonte: Rituais Umbandistas – Oferendas, Firmezas e Assentamentos – Rubens Saraceni – Ed. Madras

O Dia em que o pastor pisou no Terreiro

Onze de março de dois mil e quinze, na cidade de Santo André (SP), na Casa de Caridade Nossa Senhora Aparecida, presenciei algo que acredito ser totalmente não-ortodoxo, mas que foi simplesmente edificante.

Irei preservar o nome do visitante para evitar o fundamentalismo e não porque o mesmo me pediu.

O Pastor G, ministro da Igreja Evangelho Quadrangular, denominação evangélica, esteve em nosso Terreiro com sua família para fazer a preleção antes dos trabalhos. Chegou trajado como pastor, de bíblia em punho e juntamente com sua mulher, trazendo seu hinário e um violão.

Foi perceptível que ele estava temeroso, com medo, talvez por não estar acostumado com um local como aquele e com um ritual tão diferente. Mas acredito que seu maior receio seria a receptividade do corpo mediúnico e da assistência. Abriu um sorriso e primeiramente disse que estava muito feliz por estar naquele local, com sua família e que era um momento especial para ele.

Abrindo sua bíblia leu em Tiago 1:26-27

Se alguém entre vós cuida ser religioso, e não refreia a sua língua, antes engana o seu coração, a religião desse é vã.

A religião pura e imaculada para com Deus e Pai, é esta: Visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações, e guardar-se da corrupção do mundo.

E foi falando sobre sua experiência de trabalhos assistenciais, da necessidade da união das diversas religiões, de como a fé é sempre ao mesmo tempo Deus de formas diferentes, da tolerância necessária. Todos os dizeres, assim como o hino entoado, foram belíssimos e ditos com propriedade que um bom orador tem.

Mas, nisso tudo, sabe o que mais me chamou a atenção? A coragem desse pastor G.

Ele poderia se esquivar do convite e permanecer em seu culto já familiar ou até mesmo aceitar o convite e tentar uma doutrinação, mas não: ele foi corajoso e de peito aberto. Aceitou os cânticos iniciais, a defumação – não participando da mesma, por motivos óbvios – e respeitando aqueles presentes.

E citando o que o Vovô Chico, entidade da linha dos Pretos Velhos falou ontem nos atendimentos:

– Praticamente Daniel entrando na Cova dos Leões, com o temor, mas com a fé o guiando. Não a fé em uma doutrina religiosa, mas a fé em que Deus dissemina a palavra através de obras. E há melhores obras do que a tolerância e a caridade?

Veja bem, para ele nós poderíamos ser os leões. Para nós, ele era o leão, pois com certeza muitos também estavam temendo pelas palavras que seriam ditas.

Sei que dormi sossegado com esse tipo de atitude, depois de uma semana desgastante onde senti certo temor pela condução da raça humana. O mundo precisa de mais exemplos assim. Ainda mais que ele citou os trabalhos – e nunca a religião – de pessoas como Madre Teresa de Calcutá, Irmã Dulce, Martin Luther King Jr. e Francisco Cândido Xavier.

Fechando o artigo assim como foi fechada a participação do pastor G e de sua família em nosso Terreiro:

Andá com fé eu vou
Que a fé não costuma faia…

Originalmente publicado em Perdido em Pensamentos.